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Brasil está em penúltimo lugar no ranking de eficiência energética. O motivo? Desperdício de energia.



É fato que temos uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Dados de 2016 da EPE-Empresa de Pesquisa Energética, relativos à matriz elétrica de geração de energia, mostram que no Brasil 81,7% da energia é proveniente de fontes renováveis enquanto em outros países desenvolvidos ficaram na faixa de 20%. Por outro lado, porém, somos um dos países que mais desperdiçam energia. É fato também, que o custo da energia vem subindo bem acima da inflação e as bandeiras tarifárias, estabelecidas para custear as usinas termoelétricas, oneram ainda mais essa conta, sem falar no aumento das emissões de gases poluentes, gerados por estas usinas.

Devido a demandar maiores quantidades de energia para seus negócios, os setores de serviços, indústria e comércio acabam desperdiçando mais energia, no entanto, o mercado residencial também tem um grande potencial a ser trabalhado. Vale destacar, que pelo segundo período consecutivo, num universo de 23 economias, o Brasil ficou em penúltimo lugar no ranking de eficiência energética, ficando à frente apenas da Arábia Saudita. Publicado pelo Conselho Americano para uma Economia Eficiente de Energia, o Scorecard analisou as 23 maiores economias do mundo do ponto de vista de eficiência energética a partir de quatro tópicos principais: esforços nacionais, edificações, indústria e transporte. O estudo realizado apontou que o Brasil desperdiça, por ano, o equivalente à metade do total de energia gerado pela Usina de Itaipu nesse mesmo período, ou seja, cerca de 100 milhões de MWh, algo próximo a 15% do consumo anual de energia elétrica do país.

 

Esses números só comprovam o quanto nossa matriz é ineficiente. As ações de Governo têm sido mais voltadas para a geração de energia, deixando em segundo plano a gestão do consumo. Além da oferta de diferentes modalidades tarifárias e outras iniciativas nesta linha é preciso também uma atuação firme e urgente no consumo ou na demanda propriamente dita.

Os dados apontam que atualmente o setor industrial brasileiro consome cerca de 40% da energia elétrica do País, sendo que aproximadamente 70% desse percentual é consumida por motores elétricos. Na prática, isso significa que os motores elétricos são responsáveis por aproximadamente 30% do consumo total de energia elétrica no Brasil. Outro ponto interessante é que em países ditos desenvolvidos ou com patamares de desenvolvimento equivalentes ao do Brasil, são utilizados equipamentos mais eficientes, seja motores elétricos ou eletrodomésticos, notadamente equipamentos de refrigeração, sendo, portanto, necessário o estabelecimento de novos e mais rigorosos requisitos de desempenho energético para os mesmos.

Embora custem mais, equipamentos mais eficientes acabam “pagando-se”, principalmente devido ao tamanho da conta de energia, onde estão combinados a tarifa elevada e alta carga tributária. Recentemente o MME-Ministério de Minas e Energia fixou metas de desempenho para novos motores que venham a ser produzidos, desta forma aumentando o grau de rendimento dos mesmos. O MME estabeleceu o programa de metas de rendimentos nominais mínimos para motores de indução trifásicos, que são os equipamentos responsáveis pela maior parcela de consumo de energia elétrica do país. A medida faz parte da Portaria Interministerial nº 01/2017, que entrará em vigor a partir de 2019. Porém, já “nascerão” ultrapassados, apesar de reduzirem o consumo de energia, pois estarão aquém do desempenho de equipamentos atualmente utilizados fora do país.

Os equipamentos de refrigeração do tipo split inverter tão propagados como ideais por propiciarem uma economia de até 30% no consumo de energia, devido ao maior custo, ainda são pouco utilizados no país. Os consumidores ainda preferem pagar menos pelo bem e acabam não pensando na economia a médio e longo prazo. Ainda o que se vende aqui em termos de eletrodomésticos em geral já é obsoleto em muitos países do mundo.

Na eficiência energética, é preciso combinar avanços tecnológicos e a gestão pelo lado do consumo, na demanda. Alguns aspectos são culturais e demandam tempo para as mudanças acontecerem. O país já possui o PROCEL-Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica e o PEE-Programa de Eficiência Energética da ANEEL, que são muito importantes, bons programas, porém, precisam ser reavaliados e reorientados.

O presidente da ABESCO - Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia, destaca que em Pesquisa realizada por essa instituição, sobre o potencial de eficiência energética no Brasil entre 2008 e 2016, constatou-se que nos últimos três anos o Brasil desperdiçou 143.647 GWh, ou seja, um potencial de economia de R$ 61,71 bilhões. Esse montante só não foi maior porque o Brasil entrou em recessão e a produção industrial caiu drasticamente entre 2015 e 2016.

Portanto, existe um grande potencial a explorar no segmento de economia da energia. Uma das medidas adotadas pela ANEEL obriga às distribuidoras a investirem 0,5% de sua receita operacional líquida no PEE-Programa de Eficiência Energética da ANEEL, que é custeado por todos via tarifa de energia elétrica.

Muito embora muitos projetos sejam bem elaborados, existem outros de qualidade questionável. As distribuidoras acabam priorizando quantidade ao invés de qualidade e muitos projetos são voltados apenas para a substituição de geladeiras antigas por mais modernas, substituir lâmpadas fluorescentes por LED e substituir equipamentos de refrigeração convencionais para os do tipo inverter e por aí vai. A ênfase é aplicar os recursos em projetos mais fáceis de implementar e, desta forma, utilizar os recursos obrigatórios. As distribuidoras aos olhos do consumidor estariam realizando ações sociais para benefício dos mesmos, porém está tudo dentro da tarifa que pagamos.

A qualidade destes projetos precisa ser melhorada. Quando se fala em eficiência energética, temos que ver o todo, reavaliar desde os projetos elétricos das instalações, substituir condutores por maior bitola, checar pontos críticos como emendas, percurso, redimensionamentos necessários e divisão dos circuitos elétricos, automatizar algumas situações com emprego de sensores de presença, dentre outras medidas. Existe um campo muito grande para explorar ainda!

A geração distribuída e a micro e minigeração de fontes renováveis vive um bom momento no país. De acordo com projeções da EPE, até 2024 a geração eólica e solar deverá atingir cerca de 14% da matriz elétrica. Contudo, a eficiência energética deve ser uma discussão que preceda ou acompanhe isso porque não adianta termos produção de energia por fontes renováveis se continuamos a desperdiçar grande parte desta energia. Não estaremos cuidando bem do meio ambiente desta forma. Deve-se ter esta premissa como Governo e Órgãos do Setor Elétrico, encarando isto com a devida prioridade! Outro dia, por acaso, ouvi um comentário de uma pessoa assim: “coloquei energia solar fotovoltaica na minha casa e agora nem me preocupo mais, o ar condicionado fica ligado direto”.

Para otimização dos resultados, o tripé - equipamentos mais eficientes com certificação do Procel, hábitos conscientes e projetos inteligentes deve estar bem alinhado. Enfim, é preciso agir com estratégia e inteligência produzindo equipamentos mais eficientes e elaborando bons projetos. Agindo desta forma estaremos reduzindo o consumo, o gasto e ainda protegendo o meio ambiente e as futuras gerações, que agradecerão!

Teomar Estevão Magri é Conselheiro do CONCEL-MT (Conselho dos Consumidores de Energia Elétrica de MT)

Eng. Eletricista e de Segurança do Trabalho com MBA em Gestão de Negócios, Coordenador de Energia da SEDEC