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A melhor energia é aquela que não se gasta



O impacto que a pandemia da Covid-19 causou nas contas das pessoas e das empresas faz com que se busque redução de custos e gastos. Neste contexto é amplamente oportuno falar de Eficiência Energética, que significa realizar mais trabalho com a mesma energia ou pelo menos o mesmo trabalho (obter o mesmo serviço) gastando menos energia.

Alguns anos atrás com taxa selic na faixa dos 15%, as empresas preferiam aplicar os recursos em outras fontes de rendimento, e certamente a eficiência energética não era uma prioridade. Somente nos últimos anos o tema vem ganhando importância devido às altas tarifas de energia elétrica no país, elevadas cargas tributárias e a necessidade de reduzir os gastos com esse impactante insumo que representa muito ao final do mês.

Temos no Brasil uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo. Mais de 80% da energia elétrica produzida no país é proveniente de fontes renováveis enquanto nos outros países da OCDE ficam na faixa de 24%. Por outro lado, porém, somos um dos países que mais desperdiçam energia. Vale destacar, que pelo segundo período consecutivo, num universo das 23 maiores economias, o Brasil ficou em penúltimo lugar, à frente somente da Arábia Saudita no ranking de eficiência energética em 2016, publicado pelo Conselho Americano para uma Economia Eficiente de Energia, sob o ponto de vista de eficiência energética a partir de quatro tópicos principais: esforços nacionais, edificações, indústria e transporte. O estudo realizado apontou que o Brasil desperdiça, por ano, o equivalente à metade do total de energia gerado pela Usina de Itaipu nesse mesmo período que produz cerca de 100 milhões de MWh anualmente, algo próximo a 15% do consumo anual de energia elétrica do país.

Para o presidente da ABESCO - Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia, Alexandre Moana, a situação do Brasil fica ainda pior quando comparada com os BRICS. De acordo com ele, o fato de o Brasil ter ficado atrás, inclusive da África do Sul, só revela o quanto nossa matriz energética é ineficiente.

As ações de Governo têm sido mais voltadas para a geração de energia, deixando em segundo plano a gestão do consumo. As bandeiras tarifárias quando acionadas encarecem a conta dos consumidores e sinaliza algum grau de risco para atender a demanda por energia. Volta e meia a palavra “racionamento” surge, trazendo muitas incertezas. Com possível retomada da economia é necessário se aumentar e diversificar as ofertas de energia mas sobretudo trabalhar fortemente também na gestão do consumo, como já feito em outros países da Europa e EUA.

Os dados apontam que atualmente o setor industrial brasileiro consome cerca de 40% da energia elétrica do país, sendo que aproximadamente 70% desse percentual é consumida por motores elétricos que acabam sendo responsáveis por aproximadamente 30% do consumo total de energia elétrica no Brasil. Equipamentos mais eficientes acabam “pagando-se”, principalmente devido a tarifa elevada e alta carga tributária. O MME-Ministério de Minas e Energia fixou metas de desempenho para novos motores que venham a ser produzidos estabelecendo o programa de metas de rendimentos nominais mínimos para motores de indução trifásicos, que são os equipamentos mais utilizados no país. A medida faz parte da Portaria Interministerial nº 01/2017, que entrou em vigor a partir de 2019.

Porém, já “nasceram” de certa forma ultrapassados, pois estão aquém do desempenho de equipamentos atualmente utilizados fora do país.

Os equipamentos de refrigeração do tipo split inverter tão propagados como ideais por propiciarem uma economia de até 35% no consumo de energia, devido ao maior custo, ainda são pouco utilizados no país. Na eficiência energética, é preciso combinar avanços tecnológicos e a gestão pelo lado do consumo, na demanda. Alguns aspectos são culturais e demandam tempo para as mudanças acontecerem. O país já possui o PROCEL-Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica e o PEE- Programa de Eficiência Energética da ANEEL – Agência Nacional de Energia Elétrica, que são muito importantes, boas sementes, porém, precisam ser reavaliados e reorientados.

O presidente da ABESCO, destaca que em pesquisa realizada por essa instituição, sobre o potencial de eficiência energética no Brasil entre 2008 e 2016, constatou-se que em três anos o Brasil desperdiçou 143.647 GWh, ou seja, um potencial de economia de R$ 61,71 bilhões. Esse montante só não foi maior porque o Brasil entrou em recessão e a produção industrial caiu drasticamente entre 2015 e 2016. Uma estimativa apresentada pela Comerc, empresa comercializadora de energia, aponta que o Brasil desperdiçou cerca de 60 mil GWh de energia no ano de 2015, esse volume é equivalente a cerca de 13% do consumo nacional. O foco da eficiência energética alcança os melhores resultados em climatização, iluminação e em motores elétricos.

Portanto, existe um grande potencial a explorar no segmento de economia da energia. Uma das medidas adotadas pela ANEEL obriga às distribuidoras a investirem 0,5% de sua receita operacional líquida no PEE-Programa de Eficiência Energética da ANEEL, que é custeado por todos os consumidores de energia via tarifa de energia elétrica.

Muito embora muitos projetos sejam bem elaborados, existem outros de qualidade questionável. As distribuidoras de energia acabam priorizando quantidade ao invés de qualidade e muitos destes são voltados apenas para a substituição de geladeiras antigas por mais modernas, de lâmpadas fluorescentes por LED e equipamentos de refrigeração convencionais para os do tipo inverter e por aí vai. A
ênfase é aplicar os recursos em projetos mais fáceis de implementar e, desta forma, utilizar os recursos obrigatórios. As distribuidoras aos olhos do consumidor estariam realizando ações sociais para benefício dos mesmos, porém está tudo dentro da tarifa que pagamos. Ressalta-se ainda que são as próprias distribuidoras que fazem a “seleção” dos projetos contemplados quando o mais correto e mais transparente seria realizá-la através de um comitê gestor com a participação de outras entidades públicas e privadas, dentre eles por exemplo os Conselhos de Consumidores de Energia Elétrica que representam quem realmente custeia o Programa.
A qualidade destes projetos precisa ser melhorada. Quando se fala em eficiência energética, temos que ver o todo, reavaliar desde os projetos elétricos das instalações, substituir condutores por outros de maior bitola, checar pontos críticos como emendas, percurso dos fios, redimensionamentos necessários e divisão dos circuitos elétricos, automatizar algumas situações com emprego de sensores, utilizar novas tecnologias dentre outras medidas. É possível ainda agregar geração por fontes renováveis através de micro e minigeração distribuída em sintonia com a Resolução 482 da ANEEL, notadamente com a utilização de energia solar fotovoltaica nas edificações cujo custo vem caindo bastante nos últimos anos, de fácil instalação e manutenção. Existe um campo muito grande para explorar ainda !

Embora existam muitas medidas de eficiência energética de fácil aplicação, o financiamento ainda é um problema, porém o retorno obtido já é bastante significativo para alguns segmentos. Uma modalidade interessante é a realização de leilões de eficiência energética. Já realizado em outros países e mais recente começa a ganhar importância no país através de um projeto piloto da ANEEL em Roraima. A ANEEL define um montante de energia que será alvo de redução de consumo, e os participantes competem pelo menor custo para promover essa redução. São oferecidos lotes, sendo um de iluminação pública e outros de projetos “puros” de eficiência energética (troca de equipamentos, instalação de usinas de geração distribuída solar, entre outros).Trata-se de uma espécie de “leilão de geração às avessas”.

O grande potencial a ser explorado pela eficiência energética se concentra nos segmentos de serviços, indústria e comércio. O desperdício energético nesses setores é muito maior pois demandam mais energia em seus processos. No setor de serviços públicos como água e esgoto, iluminação pública também apresentam grandes oportunidades. Porém no setor residencial há uma vasta oportunidade ainda a ser explorada.Segundo dados da ANEEL de 2019, em média no país uma residência consome cerca de 164 kWh por mês enquanto em Mato Grosso essa média é de 231 kWh por mês. Ou seja, aqui em nosso Estado a média chega a ser 40% maior devido principalmente às altas temperaturas e com isso um maior consumo de energia nessa “cadeia do calor”.

Logicamente tem que haver uma preocupação e uma prioridade com projetos sustentáveis para as edificações que apliquem com consistência as estratégias bioclimáticas visando economia e o melhor aproveitamento dos recursos naturais durante a construção e em toda a vida útil da edificação. Melhorar a ventilação natural, promover o isolamento térmico, privilegiar uso de determinadas cores para revestimentos, inserir vegetação próxima ao edifício, posicionar a construção em função da orientação solar mais adequada, são algumas das medidas eficazes.

A geração por fontes renováveis vive um bom momento no país. Contudo, a eficiência energética deve ser uma discussão que preceda ou acompanhe isso porque não adianta termos produção de energia por fontes renováveis se continuamos a desperdiçar grande parte desta energia. Outro dia, por acaso, ouvi um comentário de uma pessoa que disse para mim o seguinte: “Coloquei energia solar fotovoltáica na minha casa e agora nem me preocupo mais com o consumo e a conta de energia”.

Com certeza, não é isso que se espera de consumidores conscientes !

O Brasil assumiu compromissos com a redução de emissões de gases de efeito estufa durante a COP 21 de Paris em 2015. E que a eficiência energética é um dos temas a serem atacados, pois há a necessidade de que o país aumente a sua eficiência energética em 10% até 2030.

Para otimização dos resultados, o tripé - equipamentos mais eficientes com certificação do Procel, hábitos conscientes e projetos inteligentes, deve estar bem alinhado. Enfim, é preciso agir estrategicamente e com inteligência produzindo equipamentos mais eficientes e elaborando bons projetos congregar todos estes elementos. Agindo desta forma estaremos reduzindo o consumo, o gasto e ainda protegendo o meio ambiente e as futuras gerações, que nos agradecerão! Afinal como sempre digo: a melhor energia é aquela que não se gasta !

*Teomar Estevão Magri, Engenheiro Eletricista com MBA em Gestão de Negócios, Especialista e Consultor em Energia, membro do Conselho de Consumidores de Energia Elétrica de Mato Grosso-Concel MT.